Da Televisão ao Jornalismo Digital, Cassio Barco reflete sobre o momento do Jornalismo Esportivo
- Gustavo Bastos Queiroz Silveira de Assumpção
- 9 de abr.
- 22 min de leitura
Nesta entrevista o jornalista suas experiências no jornalismo esportivo e apresenta um panorama do cenário atual na editoria

Cassio Barco, natural da cidade de Santos e apaixonado pelo Santos Futebol Clube, durante a infância sempre frequentou a Vila Belmiro, mas sua paixão se estendeu para além do time da baixada santista e se uniu ao esporte, prova disso foi a vez que na época que ele morava em Anápolis, aos 13 anos, ele e um amigo pegaram um ônibus para assistir um jogo do Anapolina. Mais tarde, o amor virou trabalho e no primeiro ano da graduação em Jornalismo, Cassio entra para a comunicação do Santos, ele e a equipe criam a Santos TV, um projeto que revolucionou a comunicação dos times de futebol no Brasil.
Depois da Santos TV e já formado, Cassio consegue sua tão sonhada vaga na Rede Globo, trabalhou na emissora durante 11 anos, foi repórter do Globo Esporte de São Paulo, correspondente do canal em Barcelona e retorna para o Brasil para apresentar o Globo Esporte de São Paulo, após uma série de mudanças no canal Cassio parte para outro desafio. Como influenciador digital cobre a Copa do Mundo do Qatar pela FIFA, o trabalho agradou e foi contratado pela entidade máxima do futebol, atualmente ocupa o cargo Senior Live Editor
Vamos falar sobre a sua formação, onde você se formou, em que ano, em qual instituição? Quais foram as experiências que marcaram a sua época da faculdade?
Em 2008 me formei na Unisanta, em Santos, sou de Santos, e comecei a fazer estágio muito cedo, então, para falar bem verdade, assim, eu queria até ter levado a faculdade mais a sério, mas na minha época o estágio não era nem regulamentado, trabalhava 12 horas por dia no estágio, ganhava R$ 500. Ia para faculdade à noite, ou dormia ou não ia. Mas assim, foi empurrada a faculdade.
Mas falar que a minha melhor lembrança é o Jornal dos Jogos. Porque a Unisanta faz os jogos universitários da Baixada Santista, E tinha um jornal diário que cobria os jogos, e toda essa parte de cobertura, tanto resultado dos jogos como ambiente de jogos, entrevistar torcedores e era bem divertido, porque era essa atividade diária mesmo. Durante aquelas semanas dos jogos, quase não tinha aula e a galera se dedicava. Tinha um jornal da TV e na época eu estava no jornal impresso. E foi meu primeiro contato assim mesmo com cobertura, dia a dia, logo no primeiro ano da faculdade, acho que foi bem especial para mim. É uma coisa que direto eu lembro.
Quando eu tô lembrando das coisas assim da faculdade, eu lembro daquele negócio da de engenharia e e não sei quê, tinha uma puta de uma briga e teve um dia que estourou um pau e eu tava no meio da galera e eu comecei a me sentir o jornalista do filme assim, sabe? Tipo, os jogos universitários da faculdade, voando pedra e eu ali no meio anotando, foi bem divertido.
Por que você escolheu jornalismo esportivo? Foi uma escolha natural para você? Já que você era de Santos, uma cidade que vive muito o dia a dia do time.
Não, porque sempre fui muito apaixonado por esporte, desde moleque, principalmente pelo Santos, sempre colava na Vila desde moleque. Eu morei dois anos da minha adolescência em Anápolis, Goiás, meu pai tinha sido transferido para lá, eu estava na sétima e eu lembro que eu e um amigo pegamos ônibus sozinho, com 13 anos, a gente ia para o jogo da Anapolina na série B, era R$ 3 o ingresso, então eu acho que eu sempre fui muito apaixonado por esse pelas emoções causadas pelo esporte. Quando eu entrei em jornalismo, não entrei com a cabeça de entrar no esporte, porque eu pensava: “Cara, é um negócio muito difícil, são poucas vagas”, na minha época você tinha que trabalhar no Lance!, ou no Globo Esporte, ou algum portal, mas não tinha a amplitude que tem o mercado hoje. Então, eu não pensava em esporte, eu cheguei e entrei no curso meio sem saber o que eu ia fazer. Minha primeira vontade era escrever para revista.
Eu pirei no lance de jornalismo interpretativo, literário. Eu comecei a assinar a Carta Capital, eu era apaixonado pelos textos. E eu falei: “Cara, acho que é isso que eu quero fazer”. No começo era isso, eu comecei a cair para o texto. Só que é lógico, ainda quando eu estava na faculdade, foi quando deu uma grande virada pro jornalismo esportivo, porque eu sempre fui muito de entretenimento também, eu sempre tive banda, sempre gostei do rolê, das manifestações artísticas, criatividade, quando eu estava na faculdade, veio o começo da “Era Tiago Leifert", e eu falava: "É isso que eu quero fazer".
E tem duas coisas aí, o diretor de comunicação do Santos também era diretor da faculdade de comunicação da Unisanta, Humberto Chalub. Todo sábado a gente tinha aula de texto e o Chalub estava lá e eu ficava enchendo o saco dele, dando ideia de coisas que ele devia fazer no Santos. Eu falei: "Pô, vocês tinham que fazer isso, tinha que fazer aquilo e tal". Ele falou: "Meu filho, não quer trabalhar lá? Abriu uma vaga de estágio” E eu fui, fiz o teste de estágio, passei e comecei a fazer estágio no Santos, aí pô, entrei no esporte, entrei no clube do meu coração, já era uma coisa louca. Quando eu estava lá, teve um dia que apareceu Tiago Leifert, ele não era conhecido ainda, ele ainda era repórter. Eu fazia estágio e ele era um carinha loirinho, magrinho, que ninguém tinha visto. E aí ele falou: "Meu, eu tô fazendo uma matéria sobre o Kléber Pereira".
Foi super gente boa, se apresentou para todo mundo, só que ele entrevistou meio que todo mundo, menos o Kléber Pereira. Ele começou a entrevistar o preparador físico, o Adailton, que marcava ele nos treinos, começou a entrevistar o auxiliar técnico. E eu me perguntei cara, o que esse cara tá fazendo? A matéria foi para o ar e aquilo explodiu minha cabeça, a forma que ele didática, que ele achou para falar sobre o Kléber Pereira que era muito difícil de explicar como aquele cara era artilheiro do brasileiro, com o Santos na merda e o cara com mais de 30 anos. Foi uma das melhores matérias que eu vi na minha vida de jornalismo esportivo.
Aí o Thiago começou a apresentar, eu falei: "Meu plano agora é esse, eu quero chegar no Globo Esporte e fazer o que Tiago Leifert faz”. Me identifiquei demais, com a forma humana de tratar esporte mais solto, não é nem piada, mas é o solto, humano e foi aí que eu comecei a ir para o jornalista esportivo mesmo, eu entendi o que eu queria fazer.
E você comentou que você fez estágio na área de comunicação da Santos TV, como foi participar da criação do canal? Que foi a introdução do YouTube na comunicação dos times.
Com certeza foi um marco, sabe quando junta tudo ao mesmo tempo, porque a gente podia ter criado a Santos TV em 2010 e não ter tido feito o barulho que fez se o time tivesse ruim, se não tivesse ganhando, podia não ter o mesmo impacto se não tivesse aqueles caras Neymar, Ganso, Madson, Zé Love, eram muitas figuras e era um elenco muito bom, o time estava numa boa fase e a gente também tava numa boa fase de ideias e criatividade, acho que tudo conspirou a favor, é lógico que tinha muito trabalho, a ideia, quando vem, era meio maluquice, mas a gente queria abrir uma janela para o torcedor dentro do clube, porque tudo que o torcedor via era através de notícias e muito restrito, você viu os jogadores de outra forma, viu eles no ambiente deles, os bastidores.
Então a gente começou a ideia de abrir uma janela no CT em alguns momentos, a gente fazia as chamadas para os jogos, com os jogadores atuando, chamando a galera para assistir e também o lance de entrar com uma câmera no vestiário que era um tabu do caramba. E assim, foi difícil, eu saí do Santos quando eu fui para Globo, cansado já, porque eu queria ir para um lugar onde a comunicação fosse valorizada, foi um dos meus principais motivos para sair, porque no clube de futebol o que importa no final é o campo e a bola, se o auxiliar técnico falar: "Não quero Santos TV aqui fazendo tal coisa”, não tem para quem se correr, é o que manda, e aconteceu isso muitas vezes tive muitas ideias muito boas de conteúdos, podendo ter bombado mais ainda e que eu não consegui fazer porque esbarrava no futebol, hoje tá muito mais solto. Ainda tem suas barreiras, mas assim, eu acho que a gente capinou um lote, demos um caminho. Foi cansativo, mas valeu a pena.
E da Santos TV você entrou na Globo, e como foi trabalhar na Globo? A maior emissora do país, e muitos jornalistas sonham em trabalhar lá e também é interessante analisar que você chegou bem novo.
Eu acho que tinha entre 22 e 23 anos, sou um cara meio ambicioso, vamos dizer, quando eu estava na faculdade, eu falei: "Tá, eu quero fazer o que o Tiago Leifert faz". O que eu vou ter que fazer, minha visão era começar a trabalhar no site, começar a fazer vídeo no site, começar a aparecer, colocar a cara, virar repórter de TV e virar apresentador. Foi o plano que eu botei na minha cabeça, o primeiro jeito era entrar no site, foi exatamente esse plano, o Zé Gonzales, que hoje é o chefe da da comunicação na Federação Paulista, eu trocava muito com ele quando eu tava no Santos, a gente fazia muito material legal na Santos TV, eu já mandava para a Globo, às vezes, antes de publicar, mandava para TV Tribuna, mandava para vários lugares, falando: "Gente, nós vamos publicar isso aqui já já, se vocês quiserem subir no site de vocês”
Porque no final a Santos TV é uma só linha de frente, a gente não era pelo view, era para pela exposição, era o que a gente queria, não era queria dar view para o YouTube, a gente queria dar exposição para o clube, e aí numa dessa eu comecei a ficar muito próximo do Zé Gonzales e ele me me falou um dia: "Caraca, um dia meu sonho é te trazer para trabalhar aqui na Globo". E eu falei para ele: "Cara, meu sonho é trabalhar aí com você", inclusive se você olhar, quando eu tava na faculdade, se você olhar sua caixa de e-mail, você vai achar e-mail currículo meu. Ele foi lá, ele achou uns três e-mails meus, falando: "Me dá uma chance aí", e ele me levou para lá, para a primeira equipe de vídeo de reportagem de São Paulo, eu era o filmmaker. E eu consegui meu o crescimento num ambiente como a Globo, era absurdo.
Eu falei: “era”, porque eu não sei se é mais a mesma coisa assim, não é nem crítica, não quero dizer muito amargo, mas quando eu entrei na Globo você via esses melhores profissionais que existiam em todas as áreas. Eram os melhores câmeras, melhores editores, melhores produtores, os repórteres e com o tempo a Globo foi mudando um pouco de filosofia, de visão de trabalho, começou a baratear muito salário, barateia muito mão de obra, mandar embora a galera boa e contratar a galera que era muito mais barata. Hoje eu acho que não é um espaço que você cresce tanto e tão rápido como você podia antes, quando eu entrei lá absorvi muita coisa muito rápido, com muita gente, posso te citar 30 pessoas que eu considero professores, um de texto, outro de imagem, outro de edição, outro de estar na frente da câmera, cada um tinha a sua especialidade. Eu fui muito nessa de querer me encontrar ali e com a minha criatividade eu consegui me encontrar, porque era esse momento, ainda estava no finalzinho da gestão Tiago Leifert.
Eu acreditava muito no potencial do digital, acreditava que a GE TV tinha que ter sido feita 10 anos atrás, quando eu estava lá a gente queria fazer uma GE TV e era barrado, éramos condenados quando a gente dava esse tipo de ideia. Mas assim, eu consegui viver todos os meus sonhos lá, inclusive quando eu tava lá, o Neymar foi jogar no Barcelona, eu fui mandado para ser correspondente em Barcelona, acho que os dois melhores anos da minha vida tanto o profissional como o pessoal, foi cobrir a Champions League, toda semana tava viajando para um país da Europa.
Depois eu volto para ser apresentador só que a Globo muda um pouco de diretriz, os diretores de São Paulo perderam muita força e foram mandados embora, São Paulo virou uma sucursal do Rio de Janeiro e lá galera é muito careta, sempre foi assim, sempre foi muito combatente desse estilo de Tiago Leifert.
Mas a minha experiência na Globo, de 11 anos, foi de aprendizado e sonhos realizados por 10 anos. No último ano eu cansei de tudo que estava acontecendo, mas eu aproveitei bem e eu acho que ainda é um bom ambiente para para qualquer pessoa que quer crescer na profissão, você chega lá e ainda vai absorver bastante, porque é um uma operação muito consolidada e você entrar nessa roda que tá girando e fazer ela continuar a girar, se você se encaixar nisso, você acaba crescendo muito rápido. Tanto que hoje que eu vejo a diferença, pessoas que trabalharam comigo na Globo e que hoje estão no mercado em comparação com outras pessoas que vem de agência, vem de lugares que parecem super legais, mas no trabalho mesmo na pauleira não aguentam.
E você está há quase três anos na FIFA, como Senior Live Editor. Como tem sido essa experiência para você? Em uma função diferente e em uma empresa do tamanho global da FIFA.
Quando eu entrei na FIFA, eu comecei como criador de conteúdo, estava fazendo vlog no Qatar, o cara que tinha me contratado para essa função gostou de mim e me chamou para chefiar a operação em português de conteúdo. É um projeto em uma instituição gigante como a FIFA, é um projeto sólido de conteúdo, é difícil, é uma instituição muito política, então tem muita restrição, e começou um projeto que é o FIFA Plus de streamar ligas, de democratizar o futebol do mundo. dar visibilidade para ligas que as pessoas não tinham acesso. Para mim tem sido incrível, porque é um trabalho que requer uma certa maturidade, que antes eu não tinha tanto eu era mais rebelde, até confrontando na Globo eu era muito rebelde, sempre tava sempre confrontando os chefes, a empresa.
Nesse trabalho tem que ser uma outra pessoa, eu tenho que lidar com federações do mundo, com marketing, consul, com vários departamentos que requerem uma experiência, uma maturidade que é diferente do que eu fiz até agora, mas na FIFA eu sou freelancer, eu ainda tenho a liberdade de tocar outros projetos e nesse ano eu fiz vários, eu fiz projeto com de controle com a Federação Paulista, eu fiquei três meses ali trabalhando com os Desimpedidos, que eu fiz a direção de conteúdo do time deles na Kings League, passei três meses agora no canal Goat também. Então, consigo exercitar esses dois lados, o lado da criatividade e da parte de estratégia e conteúdo de performance social, que eu gosto e na FIFA faço esse lado mais de curadoria, editorial, é política quase, que é divertido também. É meio isso, a FIFA é tipo uma onomatologia do futebol, então envolve isso, uma linguagem e até uma forma de tratar as pessoas diferentes.
Qual foi o momento que mais te marcou na sua trajetória profissional? Se pudesse escolher é um momento que se você pudesse viver para sempre seria esse momento, Qual você destacaria?
Eu acho que nada vai ser tão gostoso como eram as externas, o lance de tá todo dia na rua com o cinegrafista, com o assistente e ir atrás de pessoas para entrevistar, ir para treino, ir para jogo, essa vida é gostosa. Quando eu estava em Barcelona, o lance era eu sozinho como repórter, mas toda semana ia para um jogo diferente, num país diferente, sozinho, mas eu acho que não tem como não destacar a final de Champions, que para mim é o auge, eu fiz três finais de Champions seguidas.
Foram Bayern Munchen x Borussia Dortmund, depois foi Real Madrid x Atlético Madrid e depois o Barcelona x Juventus, que é aquele que o Neymar ganha. Final de Champions é um negócio muito diferente, o ambiente, a sensação de você estar lá e estar no campo ainda, e eu ficava atrás do gol, então é inigualável. É difícil escolher só um momento.
Como funciona o seu dia a dia assim dentro da editoria, tanto na FIFA quanto na produção das redes sociais? Já que você também tem o seu perfil no TikTok e no Instagram.
Eu fiz o meu perfil por três meses nesse ano que eu estava mais tranquilo no começo do ano e eu tinha algumas algumas teorias sobre algoritmo, que eu queria botar para prática, hoje estou numa posição mais de coordenar projetos, eu não consigo botar a mão em tudo, sempre alguma coisa se perde no caminho. Eu acho que um conteúdo bom para performance, ele tem que estar bem amarrado em todos os pontos, você tem que ter um roteiro para performance, para performar bem, uma atuação, a edição, ritmo, o copy do post, a thumb do vídeo, o título, os keywords, uma metadata, tudo faz diferença.
Por exemplo, estava no Canal Goat, estava coordenando 100 pessoas ao mesmo tempo e você não consegue ficar fazendo micromanaging de todo mundo, mas eu queria por esses 3 meses fazer, tirar a prova de algumas coisas, eu fazendo tudo para ter certeza que algumas coisas funcionavam ou não funcionavam, botei esse plano de postar cada 2 dias um vídeo diferente e eu consegui comprovar muitas coisas que eu sabia que funcionava, outras que eu imaginava que não funcionava. Minha rede eu acho que eu tava com 10.000 seguidores, subi para 30.000, nesses dois, três meses de trabalho, mas eu não consigo com a FIFA, com os freelas que eu faço e com dois filhos, ser criador de conteúdo.
A criação de conteúdo eu faço muito para os outros, por exemplo, nesses 3 meses que eu fiquei de diretor do Goat, eu tava coordenando a parte de transmissões, de social media, de talentos, gestão do canal, então é meio é um lance de quase um treinador, que você fica o dia inteiro falando com muitas pessoas e às vezes você não para e escreve um texto inteiro, mas você tá lendo vários textos de outras pessoas, tá trabalhando com elas e não tem aquele lance de ficar 8 horas trabalhando, começava responder mensagem às 7 horas da manhã, parava às 11 horas da noite. Isso paralela à FIFA.
Na FIFA, eu tenho umas funções mais definidas, eu consigo me organizar para trabalhar nas horas que eu tenho disponíveis, mas principalmente pela manhã, eu já comecei a começar e dar um gás de umas 3 a 4 horas para começar a ficar mais tranquilo. Então, eu vou falar que nos últimos anos, eu não tenho tido uma vida muito típica de uma editoria, porque eu tenho esse trabalho na FIFA, eu tenho as consultorias que eu faço que, fiz Federação Paulista, parei, fiz NWB, parei, fiz Goat, agora eu já tô conversando um outro trabalho. Eu acho que é a flexibilidade que a nossa editoria e acho que na verdade toda editoria produção de conteúdo oferece.
Em termos de apuração e linguagem, o que você acha que diferencia a cobertura esportiva de outras áreas de jornalismo?
Eu acho que a editoria mais próxima do futebol hoje é a política, pela paixão em que mexe com as pessoas pro bem e pro mal por um lado, por outro, eu acho que se a gente olha a direção que o conteúdo tá tomando, entretenimento cada vez mais pega. É claro que o bom jornalismo não vai ser vencido, mas uma apuração extremamente difícil de fazer, às vezes de uma contratação de um jogador que vai te tomar às vezes uma semana para se desenrolar e conseguir dar o furo, às vezes não vai te dar o mesmo acesso que dá a Virgínia postando no closet do Vinícius Júnior.
Isso é na cobertura esportiva e de outras áreas de jornalismo, mas eu acho que quando a gente fala em em jornalismo esportivo, não dá para a gente generalizar como era antes antigamente, porque você tem os nichos que buscam tudo, tem gente que busca a fofoca no esporte, tem gente que quer saber como que treinou o time, quer ver um relato de jogo, quer ver um jogo narrado com emoção, quer ver o jogo narrado com resenha, então, acho que quando a gente fala em esporte ainda tá muito aberto. Antigamente, o esporte já era segmentar, depois veio o setorismo, agora você pode falar do Santos mal, bem, gritando, brincando, fofocando, desenhando, fazendo música, o que você quiser.
Antigamente a gente falava que na internet precisa falar com os jovens, a Globo também agora, a GE TV entrou com essa ideia errada, “Ah, precisamos falar com os jovens”, você não precisa falar com os jovens, meu pai tem 70 anos e tá na internet o dia inteiro, tá no WhatsApp, tá no tá no YouTube. Então assim, quando você vai para a internet, você tá falando com muita gente. Então, por isso que eu falo, é difícil e hoje, no mundo de hoje, você falar numa forma de linguagem para esporte, mas dentro do esporte você pode ter todos os tipos de linguagem, porque tem público para todos os tipos assim.
Você comentou sobre entretenimento e resenha no meio das coberturas. E você acredita que tem limite entre informação e entretenimento na cobertura e como equilibrar esses aspectos? Tem uma maneira de agradar a todos os lados?
Hoje não tem e acho que você nem deve. Acho que tem duas coisas, você tem que se conhecer, saber o que você está fazendo, porquê está fazendo, e conhecer seu público também, o que eles querem ver e como, sabendo disso você tá fazendo certo. Se você tentar agradar a todo mundo, você não vai conseguir, hoje não dá, porque hoje a geração do conteúdo, busca pelo conteúdo do “eu quero”, a gente vê uma coisa em 2 segundos a gente decide se a gente gosta ou não gosta de alguma coisa e já passa para frente, então você tem que ser muito bom e muito de verdade, muito claro em passar tua mensagem, passar ela rápido e de uma forma que as pessoas respeitem e entendam. E tem que dar o que as pessoas querem no final. O controle ele virou um serviço.
É um serviço, por isso que eu escolho esse cara, porque ele me faz rir quando eu vejo o vídeo dele por 15 segundos. Eu acho que é o caminho, aliás, foi um um conselho que eu ouvi do do Mauro Naves quando eu entrei na Globo, e que eu acho que vale muito para tudo. E ele tava falando de um outro mundo, mas vale até hoje. E ele não sabia fazer o que a galera fazia ali, mas ele tinha o que ele fazia muito bem, e o texto dele, o VT dele, já não cabiam mais no Globo Esporte. Mas ele tinha a melhor agenda de todos os repórteres ali, todo mundo atendia ele, ele falava com quem ele quisesse. Ele falou: "Essa é minha coisa. Isso aqui é meu. Nenhum de vocês aí, nenhum repórter tem agenda melhor que eu.”
Então, é nisso que eu foco, é isso aqui que eu trabalho, eu entendi isso, o meu diferencial, eu achava que era a minha criatividade para tentar criar formas diferentes de contar história, “O que eu vou fazer de diferente para contar essa história aqui?”
É, eu acho que até hoje é o que funciona, todo mundo tem alguma coisa. Não adianta assim, ai não, mas eu não não sou bom, eu ainda não sei. Cara, talvez você não tenha a descoberto ainda, mas às vezes você conversando com os seus amigos e perguntando assim, “O que você acha que eu faço diferente? O que você vê em mim?” É de uma forma bem autocrítica assim, eu acho que você pode pode achar isso e as pessoas tem que investir nisso.
Agora falando sobre torcidas e rivalidades, como lidar com as paixões e rivalidades das de torcida sem perder a imparcialidade jornalística?
Eu nunca liguei muito, já sofri ameaça de morte para caramba. Pisava na Vila Belmiro, quando eu tava na Globo, a gente não podia muito falar o time que a gente torcia. Então, eu era um cara da Globo, era hostilizado lá também, mas mesmo assim, eu não deixava de querer fazer uma matéria na torcida, sabe? A Globo falava: "Não, vamos fazer mais uma matéria na torcida”, e eu falava: "Cara, eu vou”, porque eu sempre tive a manha de conversar com as pessoas, de quando vir alguém querer me xingar, falar alguma coisa, eu abaixava o microfone e falava: "Cara, Cassio, prazer, vamos conversar aqui qual o seu problema, senhor?", eu sempre achei que o jornalismo precisava ser tanto na parte jornalística como no entretenimento precisava ser feito assim, Palmeiras ia ser campeão da Copa do Brasil e a gente tinha que mostrar a festa da torcida e como quando o Corinthians tava fazendo uma um protesto Gaviões da Fiel, tinha que ser mostrado.
E como quando eu fiz a matéria também do Palmeiras não tem Mundial, esse vídeo é milhão de ameaças, que eu fiz uma matéria pro Globo Esporte uns 5 minutos sobre a música “o Palmeiras não tem Mundial”, essa foi uma das matérias que eu mais gosto de ter feito.
Até vinha num lugar de simpatia com o palmeirense, porque a música era muito chata, e eu lembro que surgiu de uma ideia de um já tinha tido uma semana assim, que eu peguei um amigo super palmeirense na redação cantarolando a música e teve um rolê que pegaram o Deyverson cantando e alguém falou num grupo de WhatsApp alguma coisa de explicar a música, e eu penso “Eu preciso explicar porque que essa música é tão chiclete”. E eu fiz a matéria sobre isso. E eu começo a matéria falando: "Palmeirense, desculpe, mas eu preciso falar sobre essa música aqui", e acabo falando: "Palmeirense, fique tranquilo, porque como outras músicas de chiclete, como “Ai se eu te pego," como "Arerê ", como outras, ela vai embora”, a matéria é bem legal, mas assim, eu sabia que ia fazer e ia chover ameaça de morte no meu imóvel e não foi diferente, mas eu nunca me importei muito com isso, para falar a verdade.
Se eu sei que eu tô fazendo certo, que eu tô sendo imparcial, que eu tô sendo justo com com o jogo, com o jogador, que eu acho que foi sempre o que eu foquei, não me importo com que vem da fala do torcedor, mas eu tenho que estar tranquilo que eu estou fazendo. Se eu vou criticar um jogador, se eu vou elogiar um jogador, um time, eu tenho que estar sendo justo, isso tem que estar embasado em dado, eu nunca fui na frente da câmera e falei que o cara era ruim de bola, era pé de rato, mostrar que o cara jogou 15 jogos no Brasileirão, ele participou de 14 gols sofridos aqui, foi erro dele. Para mim sempre foi assim, mesmo o elogio ou a crítica, no jornalismo, ela tem que vir de um lugar de argumento.
Qual foi o maior desafio que você já enfrentou dentro da editoria? Seja uma em uma cobertura ao vivo, na produção de uma reportagem e o que você fez para controlar a situação?
Eu acho que o maior perrengue, eu falei de um protesto do Corinthians era um protesto da Gaviões da Fiel, acho que foi em 2013, a Gaviões da Fiel fez esse protesto, era um jogo no Pacaembu, eles falaram: "A gente não vai cantar os 45 primeiros minutos, vai ficar todo mundo sentado, só olhando o jogo e não vão apoiar". E a gente sabia que ia rolar esse protesto, eu fui lá com a minha câmerazinha, uma câmera de mão. Na época não tinha celular, ninguém tinha, e eu cheguei lá, comecei a gravar e até estava de boa, só que o que aconteceu? Os torcedores comuns assim, o civil que não era da Gaviões, começou a cantar, e os caras não queriam, eles começaram a querer intimidar assim, o cara tava com a família cantando dentro do estádio do Corinthians.
E aí eu comecei a filmar isso, tinha um cara da Gaviões intimidando os caras, porque não era para cantar, e eu com a câmera na cara do maluco era muito inconsequente também. Só que aí começaram agredir a galera, aí a polícia veio pro meio pro pau e aí começou, porradaria, polícia e gaviões, eu lá no meio com a câmera, a galera da Gaviões viu que eu estava com a câmera filmando eles e começaram a querer pegar minha câmera e tal.
E eu fugi de lá, cheguei na redação, falei: “Gente, tem uma puta matéria aqui”, só que aí os caras ficaram com medo, como era uma coisa muito explícita, estava mostrando as pessoas e ficaram com medo até de eu fazer assim nessa matéria, então o Tiago Leifert escreveu um texto, as minhas imagens, com ele narrando, e ele fala assim: "Nosso, cinegrafista", ele nunca falou o nome.
E de forma geral, assim, como você enxerga o mercado de jornalismo esportivo atualmente?
Eu fico feliz de ver gente estudando jornalismo, para fazer jornalismo esportivo, porque a real é que qualquer um num quarto hoje vira jornalista esportivo, abre o seu canal e tem alguns que são absurdos, é coisa muito ruim e com muita visualização, porque o povo gosta também de baixaria, de coisa ruim. Então eu acho importantíssimo, vejo que toda essa base que eu tenho do jornalismo para o mercado de hoje me dá uma visão de conteúdo, de informação que essas pessoas não têm e que criam um ambiente muito hostil e cada vez mais hostil dentro do futebol, porque, vira esse negócio, xingar jogador e xingar diretor, aí inflama torcida, que vai em perfil, que vai fazer a na porta de casa de jogador.
O jornalismo ele tem que ser responsável, é bom que tenhamos ainda esses soldados do jornalismo no meio dessas pessoas, que estão falando qualquer coisa sem responsabilidade nenhuma por um clique, por um patrocínio na live dele. Tem jornalista e não jornalista também que dá notícia de contratação sabendo que não existe, simplesmente inventada, porque ganha atenção das pessoas, cada mentira contada por essa pessoa vira vários cliques que depois vira dinheiro para ela para conseguir enganar os outros, acho que é um momento bem crítico.
E essa estrutura de jornalismo é importante, por outro lado, todo mundo que eu vejo vir do jornalismo, mesmo jovem, molecada de 20 anos, que vem para a criação de conteúdo em rede social, vem muito quadrada, acho que é o problema também do que é ensinado nas faculdades de jornalismo, que ainda acho que é muito tá muito ultrapassado, os professores, em geral, ainda falam uma outra língua que não é a língua que o mundo fala hoje.
Eu passei muito tempo falando essa língua também, até perceber que tem muita coisa que esses professores, que é vendido, como essa é a forma de falar com as pessoas, sendo que não é nem a forma que você consome o conteúdo. É o que eu falo, muita gente que eu pego assim que eu tô dirigindo editores, produtores de conteúdo, criadores que fazem conteúdo para si. E eu acho que o jornalismo, ele viveu por muito tempo essa mentira, entre aspas, de fazer conteúdo a prestação de serviço da forma que o jornalismo acha que tem que ser feito, sem realmente perguntar para as pessoas como elas querem receber isso.
Até que as pessoas começaram a ter mais voz e as pessoas começaram a falar: "Não, é assim que eu quero consumir meu conteúdo", então, eu vou falar uma coisa besta, uma coisa que eu me recusava a fazer era botar legenda nos meus vídeos, qualquer vídeo que eu fizesse, porque eu achava que sujava o vídeo, “Eu quero que a pessoa preste atenção na imagem”, mas não é o que eu quero, é o que a pessoa quer e chegou num ponto que eu começo a reparar que se eu via um vídeo sem legenda, eu passava, então, assim, eu tava fazendo meus conteúdos para mim, não tava fazendo para os outros, e eu acho que quem vem para o jornalismo vem muito sem essa autocrítica.
Para quem eu estou fazendo? Como essa pessoa quer ver o conteúdo dela? Quer consumir o conteúdo dela em que momento? Em que formato? E isso acho que o jornalista ficou muito para trás, principalmente a TV, eu acho que tem esses dois lados, a questão teórica do jornalismo é linda, eu acho que todo mundo tinha que ter o primeiro e o segundo ano de jornalismo, eu acho que todo todo criador de conteúdo devia ser obrigado a fazer, mas essa parte do do formato, linguagem, como alcançar as pessoas, eu acho que o jornalismo ainda tá um pouco para trás. Você chega no mercado e aí se você quiser virar nesse mercado, você vai precisar aprender isso, senão você fica para trás como o jornalismo vai ficando.
Qual conselho você daria para estudantes de jornalismo ou jovens jornalistas que desejam seguir a carreira nessa área?
Eu vou bater em duas teclas que eu falei: a primeira de encontrar a autenticidade dentro do que você acredita, que você sabe fazer bem, que eu tô pensando muito nisso, não no sentido artístico, como por muito tempo eu pensava, que eu falei antigamente, tipo: “Eu quero fazer isso, porque eu acho bonito, que eu acho legal”, mas eu quero fazer isso porque com isso eu estou prestando um serviço para alguém para esse tipo de pessoa, e como essa pessoa quer receber?
E o segundo conselho que é essa última parte que eu tava falando da galera que vem do jornalismo para criação de conteúdo, que hoje é tudo criação de conteúdo. Que é essa flexibilidade no formato, entender melhor a linguagem, é estudar mais algoritmo, se você estudar ele, é roubado, é fácil você pegar um conteúdo e botar no algoritmo, mas você só copiar um vídeo de alguém, uma estratégia de alguém, não vai te garantir sucesso, pode te garantir views em um vídeo que vai bombar.
Você entender o DNA da marca que você tá trabalhando, da sua criação de conteúdo, da empresa que você tá tá trabalhando e aplicar ela um texto edição dentro do algoritmo, quando você entende o algoritmo, é isso que faz a diferença para um conteúdo performar, porque no fundo as pessoas também ainda tem um pouquinho de julgamento para entender o que é bom e o que é de verdade, e isso impulsiona o algoritmo.
Então, acho que eu iria muito nesses dois lados: entenda quem você é, qual serviço está prestando, entenda o que as pessoas são e o que que elas esperam de você.



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