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Futebol mostra como a paixão pode virar violência

  • Foto do escritor: Gustavo Bastos Queiroz Silveira de Assumpção
    Gustavo Bastos Queiroz Silveira de Assumpção
  • 9 de abr.
  • 7 min de leitura

De confrontos em rodovias a tragédias individuais, episódios de violência revelam como a paixão pelo futebol pode ser manipulada, ignorada ou mal interpretada.


Foto: Ricardo Moraes/Reuters


Entretanto, momentos que deveriam ser de festa viram desespero, casos de violência marcaram esse final de ano, por exemplo, na festa de comemoração do tetracampeonato do Flamengo, realizada no dia 30/11 no Centro do Rio, torcedores entraram em conflito com a polícia militar que reagiu utilizando balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar as pessoas que estavam concentradas no local.    


E na última quinta-feira ocorreu um confronto entre as torcidas organizadas de Santos e Internacional na BR-101, Itapema (SC), os torcedores baixada santista estavam retornando para Litoral de São Paulo quando encontraram os torcedores do colorado que estavam voltando o Rio Grande do Sul após o jogo do time contra o São Paulo na cidade de Santos. De acordo com as autoridades, cerca de 200 pessoas participaram da confusão que teria sido iniciada após uma emboscada dos torcedores santistas.     


A relação entre a violência no futebol e a sociedade brasileira 


A violência no futebol brasileiro é frequentemente tratada como um fenômeno naturalizado, quase uma consequência inevitável da rivalidade entre torcidas. Mas pesquisadores que se debruçam há anos sobre o tema afirmam que esse olhar simplifica e distorce uma questão muito mais complexa. Para eles, a violência não é apenas algo que acontece; é algo que se constrói, se narra e se disputa na esfera pública.

Essa é uma das conclusões presentes no trabalho da socióloga Raquel Souza, pesquisadora do Observatório da Violência no Futebol, e também na análise de Felipe Tavares, doutor em Ciências Sociais e especialista nos discursos sobre violência no esporte. Ambos defendem que a questão só pode ser entendida quando se observam as engrenagens que produzem o “problema social” da violência e como essas engrenagens são influenciadas pela mídia, pelo Estado e pelas relações internas das próprias torcidas.

Os pesquisadores partem de uma ideia em comum: fenômenos sociais não se tornam automaticamente “problemas sociais”. Eles precisam ser construídos publicamente, mobilizando preocupações, pânicos morais e expectativas de solução. Felipe lembra que a Alemanha dos anos 1950, por exemplo, enfrentou uma onda de invasões de campo e agressões durante jogos, mas isso jamais foi enquadrado como um problema social. “Era visto como comportamento típico de jovens homens”, explica. No Brasil, por outro lado, episódios isolados rapidamente se tornam manchetes e reforçam uma percepção de caos generalizado.

Essa construção discursiva cria vilões identificáveis, geralmente jovens torcedores de periferia, organizados em siglas que a mídia aprendeu a demonizar. O resultado é um processo contínuo de estigmatização e desumanização, revela a pesquisa de Raquel. “A torcida organizada se torna um sujeito coletivo criminalizado, como se todos os seus membros fossem violentos”, aponta. Reduzem os torcedores a um problema a ser eliminado, e não compreendido. “Punir o CNPJ no lugar do CPF”, diz Felipe, “é uma das expressões mais evidentes dessa lógica”.


O campo das torcidas: um universo próprio

Para além dos discursos, as pesquisas mostram que a violência no futebol brasileiro possui dinâmicas próprias, que não podem ser confundidas com a violência urbana. O universo das torcidas é estruturado por códigos, alianças e rivalidades que independem do esporte em si. É por isso que, como observa Raquel, um clássico regional nem sempre é o jogo de maior risco, existem partidas entre clubes sem rivalidade histórica que se tornam extremamente tensas, por conta de alianças nacionais entre torcidas.

Esse conjunto de regras implícitas produz tensões que muitas vezes escapam ao olhar do público, mas que são centrais para compreender episódios de confronto. “Não é apenas a sociedade refletida no estádio”, explica Felipe. “O futebol tem um campo relativamente autônomo, com lógicas internas.”

Felipe lembra que o Brasil já esteve mais perto de políticas integradas de prevenção. Entre 2016 e 2019, funcionou em São Paulo o Comitê de Prevenção e Enfrentamento à Violência nos Estados e nos Estádios (CONSEG/E), que reunia pesquisadores, torcidas, Ministério Público, Polícia Militar e clubes. O comitê foi extinto sem justificativa clara.


A ausência de continuidade revela um padrão: programas de diálogo são facilmente desmontados, enquanto medidas repressivas são rapidamente implementadas. Esse caminho contrasta com experiências internacionais bem-sucedidas. A Alemanha, que nos anos 1980 enfrentou níveis alarmantes de violência, apostou em centros de convivência, unidades de apoio ao torcedor e formação política dentro das torcidas. Hoje, é um dos exemplos mais celebrados de pacificação no futebol europeu. Para Raquel e Felipe, o sucesso alemão, assim como de países como Colômbia, Bélgica e Inglaterra demonstram que a repressão, sozinha, nunca resolveu o problema.


Embora a violência no futebol não possa ser reduzida a reflexo dos problemas urbanos, ela espelha algumas de suas tensões: desigualdade, racismo, ausência do Estado e disputas políticas. O padrão de criminalização coletiva das torcidas acompanha uma tendência mais ampla de responsabilização da juventude periférica por problemas complexos.

Mas, no campo do futebol, essas dinâmicas ganham contornos específicos: símbolos, cores, territórios, trajetos, rituais. Para os pesquisadores, enfrentar o problema exige reconhecer essa especificidade e abandonar a ideia de que o torcedor organizado é o inimigo a ser combatido.


Casos de Violência no futebol brasileiro


Caso Cléo

Foto: Reprodução


Cleofas Sóstenes Dantas foi um dos fundadores e ex-presidente da Mancha Verde, torcida do Palmeiras. Cléo, como era conhecido, foi o primeiro registro de assassinato envolvendo líderes de torcida organizada no Brasil. Em 1988, aos 24 anos de idade, ele foi assassinado com 2 tiros na zona oeste de São Paulo. 


O motivo e os culpados pelo ato, até hoje, são desconhecidos, pessoas próximas de Cléo acreditam que o crime ocorreu como forma de vingança de outra torcida rival, após uma briga entre torcidas em que a Mancha Verde teria saído vencedora. O caso abriu precedentes para mais episódios parecidos e mudou o clima entre as torcidas de São Paulo com uma crescente tensão entre as instituições. 


Caso Gabriela Anelli

Foto: Arquivo Pessoal


No dia 8 de setembro de 2023, a torcedora palmeirense Gabriela Anelli, estava esperando na fila para entrar no Allianz Parque, quando foi atingida no pescoço por estilhaços de vidro em briga entre a torcida do Palmeiras e do Flamengo. A torcedora foi socorrida e internada na Santa Casa de São Paulo, onde passou por cirurgia em que teve duas paradas cardíacas. Gabriela não resistiu aos ferimentos e faleceu no dia 10 de setembro.  


Em 2025, após 2 dias de julgamento, no Fórum Criminal de São Paulo, Jonathan Messias Santos da Silva foi condenado pela morte de Gabriela, em imagens ele aparece jogando uma garrafa de vidro contra torcedores do Palmeiras, durante a investigação a perícia utilizou computação gráfica para refazer a trajetória da garrafa e constatar que foi alta probabilidade da garrafa ter acertado Anelli. 


Jonathan foi condenado a 14 anos de prisão em regime fechado. 


Caso de agressão contra Cássio 

Foto: Fernanda Luz/AGIF


O goleiro Cássio, na época atleta do Corinthians, foi agredido com um chute pelo torcedor santista Gabriel Andrade que invadiu o gramado da Vila Belmiro após o término do jogo válido pelas oitavas de final da Copa do Brasil de 2022, que o Santos venceu por 1x0. A confusão começou logo após o fim de jogo, com torcedores do time da casa que estavam concentrados atrás do gol defendido por Cássio, atirando rojões em campo


O episódio gerou conflito entre jogadores de Santos e Corinthians, além de Gabriel, mais 7 torcedores que invadiram o campo foram detidos. O caso resultou em um julgamento do Superior Tribunal de Justiça (STJD), contra o Santos, que foi punido com a perda do mando de campo por 8 jogos e multa de 80 mil reais.    

 

Péssimo comportamento de pais nos subs-11 e 12 do Paulistão

FOTO: Marcelo Chagas


Neste ano, após uma série de episódios envolvendo pais de atletas das categorias de base a Federação Paulista de Futebol (FPF), com respaldo do Tribunal Desportivo de São Paulo, decidiu fechar os portões das partidas das rodadas 15 e 16 dos Estaduais das categorias sub 11 e sub 12, a ação se trata de uma ação educativa temporária.


Até agosto de 2025, aconteceram 46 ocorrências nas categorias em questão, número que ultrapassa os do ano passado, 34. Entre os casos estão: arremessos de objetos em campo, confusão entre torcedores, ameaças à arbitragem, comissão técnica, e até aos atletas que são crianças de 11 e 12 anos.   


Torcida do Cruzeiro x Palmeiras em rodovia 


FOTO: Reprodução


Um dos casos mais emblemáticos do últimos aconteceu no dia 28 de Setembro de 2022, as torcidas organizadas Máfia Azul do Cruzeiro e Mancha Verde do Palmeiras, em que as torcidas entraram em conflito na rodovia Fernão Dias, no quilômetro 593, na altura de Carmópolis, região do Centro-oeste de Minas Gerais. 


Segundo militares, a briga generalizada aconteceu quando os ônibus das organizadas pararam em postos de conveniência próximos. Nos vídeos que circularam pelas redes sociais, é possível ver integrantes com facões, barras de metal e pedaços de madeira, além das agressões. 1 palmeirense ficou ferido e, pelo menos, 10 pessoas precisaram de atendimento médico. 


 

Os casos em dados

O observatório Social do Futebol faz o levantamento anual das ocorrências de violência no futebol brasileiro, a partir de matérias jornalísticas sobre os casos que aconteceram, os dados a seguir são do ano de 2023, visto que a metodologia utilizada no Observatório, que  também é muito utilizada na área de dados, é de que o relatório é publicado em um ano com os dados referentes ao ano anterior.


Ocorrências por estados (2023)


A partir do gráfico foi possível analisar que o estado que mais tem ocorrências é o Rio de Janeiro com 27%, em sequência aparece São Paulo com 14% e o terceiro maior é o Paraná com 7%.


 

Neste gráfico é possível analisar que os principais atores envolvidos são torcedores de times diferentes, Raquel explica a importância de utilizar o termo “torcedores” ao invés de “torcidas”, “Se a gente fala torcida, automaticamente vai remeter a uma torcida organizada, e não é isso, porque a gente também em cataloga casos que não foram feitos por torcidas organizadas, que não tem torcidas organizadas envolvidas.”



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